domingo, 25 de maio de 2014
(Todo) dia
Suas aflições tinham datas. Segunda-feira era o dia propício para pensar no quanto havia para se fazer durante a semana. Às vezes isso nem era aflição, era salvação. Na terça ela se perguntava sempre “e se”. E se tivesse escolhido outra coisa, outras pessoas... No meio da semana arrancava forças não sabia de onde para tentar ver o lado bom, mas era sempre na quarta que sentia falta de algo maior. Na quinta havia o prenúncio de algo bom, mas com o sentimento de ter muito a fazer e conseguir pouco. Na sexta buscava outra coisa, que fizesse com que ela esquecesse o quanto a solidão podia chegar forte e silenciosamente e se instaurar nela. Aos sábados queria ser outra pessoa. Talvez mais amada. Domingo era o dia de não encontrar perspectivas e se sentir cansada de tentar.
Mas meu bem não sabia que esses pensamentos iam e viam. Eram dias ruins, não uma vida que não valesse a pena. Mas para quem sente, tudo é grandioso.
Na maioria das vezes sua aflição era a aceitar tudo resignada. Não esperava nada de ninguém. Ninguém esperava nada dela.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Moda de viola. Bala de coco. Beijo na boca.
Algumas pessoas dançavam. Os vestidos das moças rodavam, e os floridos pareciam espalhar as flores pelo ar, deixando tudo perfumado. Os sorrisos só eram interrompidos para pronunciar as palavras da música. As mãos dançavam soltas, leves, como se tivessem vida própria. Os cabelos soltos voavam e pareciam acompanhar a viola. A roda seguia animada, agitada, entrando naquela madrugada fria de junho, aquele luar imponente e aconchegante. Havia a fogueira que dava luz e calor. Mas o calor mesmo vinha dos olhares trocados durante as danças. Da moça de vestido azul que olhava para o cavalheiro da viola. E ele, tímido, tocava seu instrumento como se não notasse os olhos castanhos em cima dele... Alguns riam. Alto. Bebiam a pinga quente, que descia queimando e os tornava mais felizes. Algumas crianças corriam atrás de doces, e caiam e se machucavam e não se importavam. Uma menina em especial dançava alegremente, como se estivesse sozinha, como se a vida fosse uma notícia boa. Segurava seu vestido amarelo de fitas com as mãos magras e pálidas. Rodava, girava, rodopiava e de novo e de novo... Seu cabelo há muito havia se desprendido do coque que fizera e dançava solto, louro e livre como era o espírito da jovem. Ela sorria, de olhos fechados. Sentia o vento da noite no rosto e amava o instante. Sentia as pernas tontas por causa da pinga e amava a terra no chão. Estava descalça, os pés vermelhos do quase barro, mas continuavam a dançar, criando seus movimentos conforme a música... Quando abria os olhos via aquele povo todo na festa. Seus sentidos estavam apurados. Cheiro de milho, de bebida forte, gosto de pimenta na boca, via várias cores a dançar, sentia a atmosfera da noite em seu pescoço, ouvia a moda de viola entrar em seu coração... Foi quando chegou um rapaz. Camisa xadrez, cavanhaque, jeito de homem que sabe das coisas, olhar confiante e nariz bonito. Moço bem feito. Tomou-a pela mão e lhe entregou o pacote que tirou do bolso da camisa. Sorriu meio torto para finalizar o ato que pareceu ensaiado. Ela retribuiu o sorriso automaticamente. O pacotinho era verde de pintinhas vermelhas. Abriu o papel e só nessa hora parou de dançar. O mundo continuava na moda de viola, mas ela e ele estavam em uma bolha bem frágil. Bala de coco. Três balas de coco. Será que ele pegou em aniversários? Ela sorriu para ele. Colocou uma na boca, querendo que durasse para sempre. Sentiu o docinho ir espalhando pela língua até a garganta. Guardou as outras no decote do vestido. E ainda com a bala na boca tentou sorrir para o rapaz do cavanhaque. Ele chegou mais perto e se beijaram. Cheiro de madeira do perfume dele, gosto de bala de coco na boca, tudo escuro pelo seus olhos fechados, a atmosfera da noite entrava em sintonia com as mãos dele na sua cintura, a moda de viola continuava...
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
O agora já foi
Ao abrir os olhos, sentiu que a vida lhe pertencia. Era sua por completo, sem deixar brechas. Era tempo de pegar o que era seu para si. Não culpar os outros por não terem dado a devida importância. Era tempo de ser por si só. Existia algum prazer egoísta e delicioso em se pertencer. Nunca estar só quando se estava apenas consigo. Por hora já bastava.
Sorriu o sorriso de quem descobre algo. Olhou em volta com olhos que se surpreendiam com as mesmas coisas. Tudo era único. Tudo o que doía era algo. Tudo o que vivera seria lembrado como vultos. Tudo o que fazia sorrir seria guardado com carinho e afeto. Só. Tudo o que se passava naquele momento era seu. O esquecimento de tristezas passadas aconteceu sem que se esforçasse. No íntimo, ela se protegia sem saber.
O passado estava morto. E o passado não importava muito. Alguns fatos sim. Algumas imagens que nunca deixariam sua mente. Mas tudo o que passou eram histórias. Tudo o que foi não é mais. Não existe um universo paralelo onde momentos se eternizam. Eles são efêmeros. E isso, era algo bom. Um alívio, uma recompensa, uma oportunidade. A eternidade é um segundo e nunca mais.
Estar pronta. Nova. Como alguém que acaba de chegar ao mundo e quer estreá-lo. Sentir tudo como se o fizesse pela primeira e vez e nunca se acostumar. A vida estava lhe dando outra oportunidade, e ela não queria perder tempo. Levantou-se da cama e tudo o que viveu foi à flor da pele.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Cartas que nunca serão entregues
" Hoje pensei em você. Me surgiu como um vulto. Foi a sensação horrível de estar te esquecendo aos poucos. Não lembrar do seu jeito, de quem você era comigo. Te amei de forma sólida e madura. Por que seus sentimentos oscilam ao menor vento? Por que você causou tanta dor na pessoa que sempre desejou o melhor para você? Você tem ideia do que fez, ou você pensa estar certo? Foi muito o que sofri por você.
De todas que passaram pela sua vida, fui a que menos mereceu esse sofrimento.
Às vezes, te odeio."
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Vibrante da primeira letra até o último ponto final
Ela entrou sem pestanejar e jogou sua bolsa colorida no sofá. Ainda bem que a casa é loft, pensou indo para cozinha pegar um copo de água e observando a sala vazia e quase mal iluminada, exceto pela janela que deixa transparecer alguma luz do luar. Bebeu, devagar, o líquido cortando a garganta, como se não estivesse acostumada a algo tão simples. Aquelas férias deveriam ser um espetáculo, certo? Casa na praia com os amigos mais íntimos e alguns desconhecidos que, se tudo desse certo, seriam solteiros e bonitos. Tudo estaria, de fato, perfeito se não fosse por um motivo: Caio. Um ex-romance arrebatador que terminou de modo efêmero e deixando altíssimas mágoas combinadas com tensão sexual. Na mesma casa. Tentando conviver pacificamente com o único cara que ela realmente gostou, na mesma casa. Era necessário controlar todos seus movimentos quando ele estava por perto, para não correr o risco de pular nos braços dele o beijar até que se esquecessem do que os levou ao fim. Seria mais fácil se ela pudesse controlar, também, o ciúme que sentia quando qualquer espécie feminina chegava perto dele.
E então estava lá, bebendo a água e olhando para a sala relativamente grande, onde os sofás ficavam virados um para o outro e a televisão era um simples objeto de decoração. Ninguém ficava lá. Exceto quando voltavam das festas e se reuniam para conversar e tentar esquecer do que fizeram. Quando quem voltava? Todo mundo. Os amigos, o ex, os amigos do ex. Todos os adolescentes cheios de hormônios que estavam hospedados na casa para férias incríveis, antes do primeiro ano na universidade. Ela ainda pensava sobre todos esses aspectos, e de como tinha sido infortunada em ficar na mesma casa do cara que ela jurou que nunca mais veria na sua vida. E não porque não gostaria, mas porque eram tão diferentes que suas vidas não poderiam jamais, se cruzar novamente por um simples acaso do destino. E que acaso! Estavam os dois lá, sob o mesmo teto, respirando o mesmo ar, tomando café na mesma mesa e tendo que saber exatamente com quem cada um ficava, e como ficava. As férias eram para que Nádia se divertisse. Badalar até de madrugada, tomar quantas tequilas ela achasse necessário e dormir na praia se precisasse. Mas ao ver seu ex-(alguma coisa que deveria ter sido, mas não foi) ela simplesmente não conseguiu controlar o ímpeto de beijar qualquer cara que aparecesse. Qualquer um não. Os mais bonitos, de preferência. E quando não haviam os mais bonitos, qualquer outro que fosse homem e que Caio poderia saber. Já estava uma paranóia. Ela tinha que sair. Toda noite. Não podia dar a entender de que preferiria ficar em casa, vendo televisão enquanto ele saia e ficava com quantas vadias fossem. Era necessário badalar, e além: beijar. Mais além do que beijar o homem mais gato que ela pudesse encontrar na festa, era necessário estar deslumbrante. Nada na roupa, maquiagem, cabelo ou até mesmo no modo que ela se comportava, falava, andava e sorria, era despretensioso. Tudo tinha um objetivo, uma meta: Caio. E tentando chamar a atenção de modo “discreto” dele, acaba não sendo difícil atrair a atenção de qualquer homem que estava por perto. E com isso seu saldo: dos sete amigos homens na mesma casa que ela, quatro Nádia já havia beijado. Em momentos atenuantes, de fato. Mas beijo é beijo e isso não muda.
A porta da sala abriu como se tivesse sido chutada, e pela cara com que Caio entrou, ela provavelmente havia. Ele andou até a sala e suspirou. Virou-se e viu que Nádia o observava, ainda com o copo na mão, em silêncio. Não havia ninguém mais em toda a residência, ou talvez perto, no jardim, na praia. Ninguém. Todos seus amigos estavam na grande festa de algum desconhecido que morava longe. Ela tentava absorver essa informação, junto com a surpresa. Não esperava ficar tão só com ele.
Parece que Caio também não esperava por isso. Parecia um pouco incrédulo de vê-la ali. Nádia estava com uma regata branca, que despretensiosamente valorizava seus seios. Vestia um jeans justo que modelava seus quadris e suas coxas. Seu cabelo castanho claro estava desarrumado em um coque baixo, que deixava alguns fios soltos, a única coisa que tapava seu pescoço fino e moreno. Olhava para ele com aqueles olhos enormes, cor de mel. E piscava. Cílios que hipnotizavam. Cílios? Quem repara em cílios? Ele reparou. Assim como reparou que a boca, vermelha de Nádia estava molhada. De água, que era o que ela bebia, mas poderia ser outra coisa? Ele balançou a cabeça para afastar os pensamentos que tinha ao olhar para ela, e por um momento Nádia esqueceu de como se respirava.
Seu gosto para homens era muito bom, verdade seja dita. Caio era um dos mais bonitos. Era alto, claro, cabelos curtos na medida do possível para serem desajeitados ao natural. Ombros largos, barba rala, olhos negros. Magro. Sexy. Charmoso.
—Não foi para festa por quê? – ela disse limpando a boca, antes que ele pensasse que estava babando
— Não quis. Achei que seria bom ter a casa só para mim, para variar. – então ele queria a casa para trazer alguma vadia, com certeza. – Acho que você teve a mesma ideia, então.
Não. Na verdade, Nádia se recusou a farrear porque Caio não estaria na festa. E para quem ela então se mostraria naquele vestido incrível, se ele não estaria lá para ver o que perdeu?
— Eu acabei me esquecendo. Passei muito tempo na escola, com aquelas crianças e quando cheguei todos já haviam ido. – mesmo estando de férias, ela era o tipo de pessoa que não conseguia ficar sem fazer algo útil. Sempre tinha na bolsa algum livro que a fizesse pensar, e mantinha contato com uma realidade mais difícil que a sua, para não se deixar levar.
— E estamos os dois aqui. – Que voz daquele homem! Cinco palavras e era como se ela estivesse nua na frente dele. A forma com falava a deixava sem fôlego. E para piorar a situação, e ele saiu de onde estava. Foi caminhando para a cozinha. Que era apertada, escura e em que Nádia se encontrava, tentando arrumar um jeito de parecer uma pessoa normal e não uma mulher louca por um cara que ela não via há anos.
Ele passou por ela, momento onde ela sentiu aquele perfume, o mesmo de tempos atrás. Na verdade, nunca o esquecera. Para seu azar sua memória se apegava a cheiros e toda vez que saia na rua era uma chance que tinha de passar ao lado de alguém e sentir o cheiro que lembrava dele. Nunca fazia isso de propósito, mas as lembranças chegavam como um tapa na cara. Ela respirou fundo e se virou para observá-lo. Fez-se um clarão na cozinha, da geladeira que ele abriu para pegar água. Os dois em silêncio, e isso era mais desconfortável do que qualquer outra situação embaraçosa que ela já havia vivido. Tudo quase escuro novamente, ele fechava a geladeira e se virava para ela, enquanto de uma vez e sem copo, bebeu quase metade da garrafa de água. Ela não pode deixar de notar que algumas gotas escorreram pelo pescoço dele e isso deu dois segundos sem oxigênio para seu cérebro.
—Como pretende passar a noite? – ela perguntou rápida e tentando fazer um tom que não desse a entender que a pergunta poderia se tornar um convite. Mas sua voz era sexy demais, e ela não sabia disso. Ele parou de beber água, limpou a boca e encarou Nádia.
—Eu não sei. Como você pretende passar a sua noite?
—Ler, talvez. Mas acho que vou acabar deitando na rede do lado de fora e dormindo por lá. Redes são confortáveis. – uma conversa! Era o que estavam tendo! E parecia mais fácil. Quanto mais se falava, melhor.
—Deitar seria bom. Mas está um pouco frio lá fora e é perigoso. Ficar lá, sozinha.
—O que você sugere? – Não conseguiu conter o ímpeto vadia sutil que surgiu nela.
—Deitar ainda sim. Aqui dentro. No sofá. Posso te fazer companhia.
Ela andou até ele, com a intenção de colocar o copo na bancada atrás de Caio, enquanto falava
—Somos os únicos aqui. Vamos sentar e conversar então. – mas talvez seu tom de voz, ou a forma como andou até ele, fez com que caio soltasse a garrafa de água no chão e segurasse Nádia pelo braço, fazendo ela se virar para ele, rapidamente, e muito, muito perto.
—O que acontece com a gente? – ele olhava tão fundo nos olhos dela, que era impossível que não pudesse ler seus pensamentos.
—Culpa sua! – inevitável não descarregar as mágoas, quando ele tocava no assunto.
—Minha? Culpa sua que sumiu depois de uma briga e nunca mais apareceu.
—Você sempre soube onde me encontrar e nunca quis.
—Eu quis, mas você é orgulhosa demais, e eu não ia correr atrás de você, de novo.
—Você preferiu ficar sentando esperando, só que acompanhado né?
—Você estava ocupada, beijando seus amigos bêbada.
—Culpa sua.
—Faz tanto tempo. Eu lembro que a gente conversava muito. E se beijava muito também. Você não sentiu minha falta? - ia chegando mais perto e Nádia olhava ora para sua boca,ora para seus olhos. Mas ainda não era boba e foi devagar até o ouvido dele.
—Eu senti. Assim como você deve ter sentido. Procurar em todas aqueles garotas, eu? Você deveria saber que não tem como outra mulher causar em você o que eu causo. – aquilo foi o suficiente para os olhos dele se fecharem, e ao abrir, segurou Nádia pela cintura, trazendo-a colada nele. E a beijou.
domingo, 18 de agosto de 2013
Invisível
Eu queria escrever algo para você. Mas você não vai ler. Queria te obrigar a ler. Posso ir lendo em voz alta atrás de você? Posso jogar folhas de papel com todas as coisas que eu quero te dizer pelo seu caminho? Você lereia se soubesse que vem de mim? Você leria se soubesse que escrevi com a alma e o coração? E as mãos tremiam. Eu não vou passar a limpo que é para você ver. Tatuado na minha letra trêmula. Posso te enviar uma carta e você não rasgar quando ler meu nome? Posso curar todos os erros do passado com meia dúzia de frases que fazem algum sentido? E se eu fizer uma música, você lê a letra? E se eu recitar um poema e sair correndo, você ouve de coração aberto? E se eu disser o que houver de mais bonito no mundo, e colocar seu nome, bem grande na frente de tudo, você vai ler? E se eu pedir para alguém te contar uma história que saiu da minha cabeça, mas você não precisa saber... Você vai ouvir? E se eu fizer do meu blog sua homepage você fecha a aba correndo? E se eu lançar um livro, você lê algo além do título? Eu tenho tanta coisa para dizer...
Eu queria escrever algo para você. Mas você não vai ler.
domingo, 11 de agosto de 2013
Amém
Entrou na Igreja e viu em um canto uma caixa de vidro. Dentro haviam velas eletrônicas, que acenderiam quando a pessoa inserisse moedas. Tirou uma do bolso, colocou e viu a vela se acender rapidamente. Até tremulava. Colocou outra moeda e mais uma vela se acendeu. Achou bonito como as duas velas juntinhas brilhavam. Rezou. Uma vela era por ele, a outra para si. Pediu o mesmo para os dois. Os dois em uma só oração. A Igreja estava vazia e quase escura. O silêncio era grande, mas não pesado. Se sentiu confortável. Queria ficar olhando para as velas, que juntas iluminavam pouca coisa. Mas não conseguiu. Foi embora sem saber qual apagava primeiro, para ter sempre na mente a visão delas juntas e acesas.
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