Luzia era uma menina pobre de coisas bonitas. Nunca na sua vida tinha visto um céu lindo, nunca tinha visto uma árvore cheia de vida, nunca tinha cheirado uma flor, escutado uma bela canção ou visto algum rosto lindo no meio da multidão cinzenta. Luzia era bem medíocre, para dizer assim, rápido e sem enrolação. Ela não sabia o que era amar algo, apreciar uma comida, conversar, ler. Nunca tinha visto beleza em nada na sua vida. Nunca tinha olhado para algo bonito. Nunca tinha visto alma dentro dos olhos de ninguém, ou cantarolado uma canção que fosse a mais bela de todas.
Um dia Luzia realmente abriu os olhos e enxergou com o coração. Havia uma imensidão azul, nuvens por toda parte. Haviam árvores grandiosas e belíssimas. Flores delicadas e perfeitas, cheirosas... Havia o gosto de uma refeição deliciosa em sua boca. Havia areia macia nos seus pés. Havia o barulho do mar, o cantar dos pássaros. Também havia alguma música incrível, que fez com ela se perturbasse por dentro. De repente, tudo era bonito. Rostos de pessoas tão leves e doces, tão bonitos. Olhos grandes, olhos que sorriam. Gargalhadas, abraços. Luzia se sentiu abraçada por tudo isso.
Era muita coisa bonita para se amar. E Luzia ficou extasiada, de tanto amor bonito. Era mais do que a pobre menina podia suportar, a vida era linda demais para ela. Luzia não aguentava tudo isso de beleza para amar. E então ela ficou tão cheia de amor que não coube mais nada para se apreciar. Ela caiu no chão, exausta, se perguntando: "Desde quando a vida é tão linda assim?"
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
Se entender, me explique.
Preciso me permitir. E te permitir. Mas, preciso que você e permita permitir.
Por muito tempo andei por caminhos desconhecidos. Vaguei, procurando o que eu acreditava querer. Estava tomada de vontade de achar, exasperada. No entanto nada me satisfazia. E quando achava o perfeito, recusava, temerosa. Temia achar o objeto da busca. Nunca me mostrava, ficava sem revelar meu rosto. Estava oculta por achar que me mostrava. Só foi então que percebi. Alguma coisa ficou clara em mim. Eu achava aquilo que procurava em vão, afinal, eu mesma, a criadora da busca estava oculta pelas descobertas.
Alguém precisava me achar. E para isso, daquele momento em diante eu me permiti ser descoberta.
E vivo em eternos encontros.
É gostoso quando alguém acha a gente. Uma sensação assim de liberdade e vaidade. Você se perfuma quando alguém te descobre. E sorri sabendo.
Sou assim. Só sorrio quando sei que fui achada. A gente não pode dar nossos dentes para quem não nos vê. Ou, quem sabe, é dando os dentes que somos vistos.
Pretendo sorrir sabendo. E achando... E me encontrando... E me deixo assim, desmarcada, descoberta, sorridente e permitida.
Por muito tempo andei por caminhos desconhecidos. Vaguei, procurando o que eu acreditava querer. Estava tomada de vontade de achar, exasperada. No entanto nada me satisfazia. E quando achava o perfeito, recusava, temerosa. Temia achar o objeto da busca. Nunca me mostrava, ficava sem revelar meu rosto. Estava oculta por achar que me mostrava. Só foi então que percebi. Alguma coisa ficou clara em mim. Eu achava aquilo que procurava em vão, afinal, eu mesma, a criadora da busca estava oculta pelas descobertas.
Alguém precisava me achar. E para isso, daquele momento em diante eu me permiti ser descoberta.
E vivo em eternos encontros.
É gostoso quando alguém acha a gente. Uma sensação assim de liberdade e vaidade. Você se perfuma quando alguém te descobre. E sorri sabendo.
Sou assim. Só sorrio quando sei que fui achada. A gente não pode dar nossos dentes para quem não nos vê. Ou, quem sabe, é dando os dentes que somos vistos.
Pretendo sorrir sabendo. E achando... E me encontrando... E me deixo assim, desmarcada, descoberta, sorridente e permitida.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Olhe para ela
Ele simplesmente viu aquela deusa entrar pela porta da festa. Deusa, certo? Era a palavra certa para aquele corpo incrível, aqueles cabelos pretos enormes e aqueles olhos grandes. Aqueles olhos que só uma mulher que sabe das coisas poderia ter. Ela entrou e fingiu não reparar que todos da festa olhavam para ela. Alta, linda e sorridente. Um sorriso incrível, único, de quem quer aproveitar a noite como se a vida fosse uma festa. E que disse que não é? Enquanto ela andava de um jeito encantador, e olhou fundo naqueles olhos, e ela o olhou também. Encarou, sorriu, desviou o cabelo. Era como se ela se mexesse em câmera lenta, de tão estonteante que era. O vestido preto de paetês brilhava.
Ela foi até o bar. Ele sentiu aquele cheiro do cabelo, do perfume. Ela era demais. Demais para ele, demais para qualquer homem. E ainda parecendo tão inalcançável ela ainda olhava para ele como se tivesse alguma chance.
Ela pediu uma bebida qualquer. E que voz! Que voz doce, sexy, decidida! Ele tentou respirar um pouco, foi até ela e perguntou se estava acompanhada. Negativo. Ela deu um gole, olhou fixamente para ele e comentou que gostava do seu cabelo. Ele sorriu um pouco atordoado. Ela riu, se virou e caminhou para pista.
Inalcançável, deslumbrante! E a noite estava só começando. E que noite!
Ela foi até o bar. Ele sentiu aquele cheiro do cabelo, do perfume. Ela era demais. Demais para ele, demais para qualquer homem. E ainda parecendo tão inalcançável ela ainda olhava para ele como se tivesse alguma chance.
Ela pediu uma bebida qualquer. E que voz! Que voz doce, sexy, decidida! Ele tentou respirar um pouco, foi até ela e perguntou se estava acompanhada. Negativo. Ela deu um gole, olhou fixamente para ele e comentou que gostava do seu cabelo. Ele sorriu um pouco atordoado. Ela riu, se virou e caminhou para pista.
Inalcançável, deslumbrante! E a noite estava só começando. E que noite!
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Nem é o que parece estar.
Chegou bem seco em casa, sentou no sofá e ficou sério durante um tempo. Ela não queria atrapalhar seus pensamentos e ficou calada enquanto regava as plantas da varanda. Olhou de forma sutil no canto do olho, para ver se ele reparava nela. E continuou muda, regando as mudinhas.
Ele estava estressado, tivera um dia terrível no trabalho, não estava com cabeça para conversar sobre nada com ninguém. Queria beber e ficar bebendo o resto da noite. Mas, de súbito, veio uma vontade de ir até lá...
Ela estava em pé, curvada um pouco para frente, quando sentiu uma voz em sua orelha, falando grosso, talvez até sério:
"Mas meu bem, como foi seu dia...?" E ela sorriu, aliviada.
Ele estava estressado, tivera um dia terrível no trabalho, não estava com cabeça para conversar sobre nada com ninguém. Queria beber e ficar bebendo o resto da noite. Mas, de súbito, veio uma vontade de ir até lá...
Ela estava em pé, curvada um pouco para frente, quando sentiu uma voz em sua orelha, falando grosso, talvez até sério:
"Mas meu bem, como foi seu dia...?" E ela sorriu, aliviada.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Me leve junto.
Deixo com você a imagem do meu sorriso quebrado. Deixo meu olhar vago, meu começo de lágrimas. Arrumo os fios de cabelo que caiam no meu rosto. Deixo você colocar sua mão quente no eu pescoço fino e frio. E me achar frágil, deixo. Me afasto para começar a deixar mais. Coloco meus olhos já vermelhos em você e observo seu desespero ao ver que já estou de saída. Não vou pedir desculpas.
Deixo com você os bons dias vividos. Deixo minha voz doce no telefone. Deixo meus abraços fortes em dias de fraqueza. Deixo meus risos tímidos quando você me elogiava. Minhas opiniões, eu deixo, meus beijos de quem compreende, fique com eles. Minhas mensagens, meu café, meus conselhos, deixo também. Deixo a primeira vez que eu disse eu te amo. Deixo a última também. E vou deixando, certa de que isso irá me libertar. Espero que agora que não há mais nada a ser deixado, eu possa ir em paz.
Mas o tempo passa e eu continuo aqui. Percebo, já tarde que acabei me deixando com você, e não posso ir, se fui deixada para ficar.
Deixo com você os bons dias vividos. Deixo minha voz doce no telefone. Deixo meus abraços fortes em dias de fraqueza. Deixo meus risos tímidos quando você me elogiava. Minhas opiniões, eu deixo, meus beijos de quem compreende, fique com eles. Minhas mensagens, meu café, meus conselhos, deixo também. Deixo a primeira vez que eu disse eu te amo. Deixo a última também. E vou deixando, certa de que isso irá me libertar. Espero que agora que não há mais nada a ser deixado, eu possa ir em paz.
Mas o tempo passa e eu continuo aqui. Percebo, já tarde que acabei me deixando com você, e não posso ir, se fui deixada para ficar.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Pequenininha
Passar um sábado com as amigas. Marcar de se encontrar no metro. Ir para exposição, ver gente bonita, dar risadas, se emocionar e passar na livraria. Voltar juntas de metro, se despedir na estação, cada uma seguir seu caminho. Pegar um ônibus com uma delas, e ir conversando o caminho todo sobre como está a vida, os planos. Como você se sente? Ter pessoas assim que perguntam sobre você. Que tem interesse em saber como foi seu dia. Sair para comprar pão em um fim de tarde frio. Ajudar sua mãe no supermercado. Ler um livro. Estudar para uma prova. Ligar para uma amiga e começar a cantar a trilha sonora do seu filme preferido, e até esquecer sobre o que ia falar.
Apesar de sentir um desânimo algumas vezes, de sentir falta de algo grande e intenso, acabamos nos esquecendo de como é bom ter um pouco de paz.
Acordar em um dia frio, vestir um moletom largo e ir tomar café em algum bom ambiente. Coisas tão pequenas e sem importância, que acabam fazendo da gente,um pouco mais feliz.
Ficar quietinha com você.
Ficar calma com as amigas.
É assim que a vida está agora. Calma. E por enquanto,isso tem me bastado.
Eu tenho me bastado.
Apesar de sentir um desânimo algumas vezes, de sentir falta de algo grande e intenso, acabamos nos esquecendo de como é bom ter um pouco de paz.
Acordar em um dia frio, vestir um moletom largo e ir tomar café em algum bom ambiente. Coisas tão pequenas e sem importância, que acabam fazendo da gente,um pouco mais feliz.
Ficar quietinha com você.
Ficar calma com as amigas.
É assim que a vida está agora. Calma. E por enquanto,isso tem me bastado.
Eu tenho me bastado.
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Era seis de dezembro.
O ônibus chegou ao seu destino final. sem saber o porquê, ou melhor, sem entender o porquê, Clarice levou a mão ao cordão do seu pescoço e apertou o medalhão que carregava. Respirou fundo, esperou todos os passageiros descerem, pegou sua pequena mala e saiu do ônibus. Andou até uma lanchonete e pediu um café. Lembrou que a quarenta anos atrás ela estava sentada ali, pensando nele. Passou a mão em seus cabelos brancos e percebeu que sua testa suava. Estava com medo de voltar à aquela cidade.Tomou seu café. Tomou coragem e seguiu seu caminho.
Com passos lentos, pois já tinha uma idade avançada, caminhou até chegar a uma casa.
147. Era o número da casa. "É aqui." pensou. espiou pela janela. Viu uma mulher passar com algumas roupas e ele, sentado vendo televisão. Uma rotina tão comum, e ela, um passado vivo iria atrapalhar tudo. Não importava, era necessário falar com ele. Pedir perdão. Mesmo fazendo muitos anos. Com uma das mãos, Clarice tocou a campainha, com a outra, apertou o medalhão. Um homem alto, de belos olhos azuis e de uns quase cinquenta anos abriu a porta, e, surpreso nada disse.
Os olhos de Clarice se encheram de lágrimas e ela pode notar que ele apertava seu medalhão também.
Uma promessa."Quando tudo estiver bem, eu venho te ver."
Clarice tirou seu medalhão, andou com dificuldade até o homem, colocou o colar em suas mãos e disse: "Abra."
O homem abriu, e dentro ele pode ver um pedaço de fita que dizia "André, 06/12". O homem olhou para ela chorando e lhe deu seu medalhão. dentro havia outra fita que dizia: "Voltarei." Ela olhou para ele, e André lhe deu um abraço: "Não esqueceu meu aniversário." Clarice apertou suas costas, bem forte. E disse: "Estou cinquenta anos atrasada. Me perdoe." "Tudo bem. Sempre soube que você viria, mãe."
Com passos lentos, pois já tinha uma idade avançada, caminhou até chegar a uma casa.
147. Era o número da casa. "É aqui." pensou. espiou pela janela. Viu uma mulher passar com algumas roupas e ele, sentado vendo televisão. Uma rotina tão comum, e ela, um passado vivo iria atrapalhar tudo. Não importava, era necessário falar com ele. Pedir perdão. Mesmo fazendo muitos anos. Com uma das mãos, Clarice tocou a campainha, com a outra, apertou o medalhão. Um homem alto, de belos olhos azuis e de uns quase cinquenta anos abriu a porta, e, surpreso nada disse.
Os olhos de Clarice se encheram de lágrimas e ela pode notar que ele apertava seu medalhão também.
Uma promessa."Quando tudo estiver bem, eu venho te ver."
Clarice tirou seu medalhão, andou com dificuldade até o homem, colocou o colar em suas mãos e disse: "Abra."
O homem abriu, e dentro ele pode ver um pedaço de fita que dizia "André, 06/12". O homem olhou para ela chorando e lhe deu seu medalhão. dentro havia outra fita que dizia: "Voltarei." Ela olhou para ele, e André lhe deu um abraço: "Não esqueceu meu aniversário." Clarice apertou suas costas, bem forte. E disse: "Estou cinquenta anos atrasada. Me perdoe." "Tudo bem. Sempre soube que você viria, mãe."
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