sábado, 2 de outubro de 2010

Se deixar

Ela se sentou um pouco distante dos trilhos do trem. Seus pensamentos voavam longe, enquanto estava ali, completamente só. Ventava.
Pensava em muitas coisas. Desde sua prova, passando pela saudade de seu pai, até chegar nele. Sempre havia um misto de tristeza e felicidade quando pensava nele.
Mas, pensando nele ela era levada a pensar nela. E como é difícil pensar em nós mesmos. Como dói às vezes admitir que havia dentro de si medo, erros, dúvidas e dor.
O trem estava vindo. O barulho da maria-fumaça. Ficando cada vez mais próximo. Seus pensamentos aumentavam a medida que o trem se aproximava.

Ela era um clímax. Tudo era assim na sua vida. Estava sempre no ponto crucial. Sempre pronta para o que viria a acontecer. O trem se aproximava. Todo clímax deveria ter um desfecho. Quando o trem passasse por ela e depois desaparecesse, seria o desfecho. E sua vida? Não, sua vida nunva tinha uma conclusão.

Tudo era clímax. Tudo era crucial. Cada palavra importava, cada atitude, mais ainda. Quem era ela? Qual seria seu despecho?
O trem passou na sua frente. Rápido, o vento aumentou, levantando seus cabelos.
Algums minutos em que viveu aquele clímax, fez mais perguntas a si mesma.

O trem estava indo embora. E e ela ficava. E foi então que descobriu.
Era preciso ser forte, e ao menos uma vez se deixar levar.

sábado, 25 de setembro de 2010

Seja...

"Seja. Me leve daqui, me leve embora, me faça mudar de ideia, seja quem eu preciso."
"Então seja minha."
"Eu sempre fui. Você sabe. Você me conhece."
"Não. Me diga. Me diga suas verdades, eu quero saber."
"Você é minha única verdade."
"Não sou. Você sabe."
"Seja..."
"Eu quero ser, me diga, o quê?"
"Você sabe... Seja..."
"Eu serei meu amor, basta você dizer o que quer de mim, e eu farei."
"Ah... Eu quero que você seja."
"Não chore... Por favor, não chore... Me abrace. Isso, assim. Me abrace e eu serei."
"Você é."
"Sou?"
"É."
"Desde quando?"
"Desde sempre."
"Sou... Sempre quis ser. o 'ser' de alguém."
"Ah, você é... Como nunca percebi antes..."
"Agora me diga, sou... Sou o que?"
"É. Você é. Minha parte mais bonita, meu amor mais intenso, minha felicidade mais pura, meu abraço mais sincero, meu amigo mais verdadeiro, meu namorado mais amado. É minha calma, minha paz, minha certeza, minha plenitude. Você é... Você é tudo. Mais do que eu mereço, tudo o que eu sempre quis. Eu nunca mais quero me separar de você."
"Você não vai. Uma vez sendo, sempre serei."
"Você sempre será..."

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sumir

Você cansa das coisas, das pessoas. Tudo te decepciona, tudo te atinge. Você está frágil e carente e ninguém se importa. Você quer desistir, você não vê recompensa em nada. É injusto, é cruel, é doloroso.
Tudo o que você quer é sumir. Desaparecer e se quiserem, eles virão atrás de você.
Não faz falta para ninguém, não tem nada para acrescentar.

Sumir. Seu desejo mais profundo. E chorar, como há tempos não chorava, até se esvaziar por completo.
Fazer um drama, jogar tudo pro alto, desistir, ir embora de uma vez, acabar com todas as coisas que já construiu.

Não importa mais. Você cansou.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ramblin' Woman

Tirou as luvas vermelhas, jogou em qualquer lugar. Nada mais importava. André andou até a sala e olhou tudo, buscando vestígios da passagem de Ana. Nada. A sala em sua perfeira desordem. Almofadas espalhadas em cima do sofá. A tv desligada, as caixas de dvds abertas. André gostava de filmes, Ana de livros.
Em seu quarto, a mesma coisa. Cama desarrumada, roupas espalhadas, cds jogados, janela fechada. André gostava de rock, Ana de música clássica. André gostava de escuridão, Ana de luz.
Não tinham nada em comum exceto a vontade de estarem juntos. Agora, nem isso.
Ana entrou na vida de André de uma forma rápida. Ele quase atropelou aquela garota carregada de livros que andava destraída. Em vez de reclamar, ela sorriu, aceitou as desculpas daquele homem sério e continuou seu caminho.
Foi como um feixe de luz. André não podia ver aquele ser tão puro passar por ele, sem fazer parte da sua vida.
Perguntou seu nome "Ana Clara." Ela tinha olhos lindos... "Faço faculdade de letras." "Não.. Não tenho namorado." Aquele sorriso tímido... O rosto pálido ficando vermelho... Tão linda!
Alguns cafés se foram. Alguns risos tímidos dela. Algumas palavras que podiam revelar quem era. Bastava estar atento. Ana tinha sonhos, tinha algo no seu jeito de falar. Algo em seu cheiro. Ela era única, vivendo em um mundo paralelo.

E como uma luz, Ana vai. Pega suas coisas, deixa um bilhete na geladeira. Letras amassadas, papel sujo de canela...
"Well I love you baby
But you got to understand
When the Lord made me
He made a ramblin' woman
He made me, he made me"


Era uma música. Era uma despedida.

Deixou um livro em cima da mesa. Eram poemas ou músicas, não importava. André nunca iria ler mesmo.
Aceitava a ausência dela. Mas, quando a solidão era grande, ele abria o livro e sentia o cheiro das páginas, que o faziam se lembrar da sua luz.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

?

Ela era apenas dúvidas. Não haviam certezas sobre o que fazer, o que pensar, o que sentir. Não gostava de se sentir assim, mas era invitável. Querer algo, e logo depois desistir. Sempre complicada, mas sempre decidida. E nem isso mais.
Ela era dúvidas sobre tudo. Precisa de alguém para dizer, 'eu quero isso de você' ou 'faça algo concreto.' Não havia ninguém capaz de decifrar seu pensamento, nem ela mesma. Sempre exigindo dos outros... De si... Tudo era muito difícil. Tudo era complicado.

Ela só queria algumas certezas, as certezas de antigamente.
Ela só queria algo concreto.
Ela só queria que alguém adivinhasse o que ela queria.

Ela só queria querer.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Não tem ninguém

"Eu sinto a falta dele." Admitiu em uma fração de segundo, a verdade. Sentiu cada sílaba gravar em seu coração.
Uma tatuagem.
Uma marca.
Uma ausência.
Como o vento que corta de repente o rosto, a verdade aparece. De fato sempre existiu, mas hoje ela se manifestou. "Eu sinto a falta dele." Disse em voz alta, para se confrontar com a realidade. Ela sente... É o que mais ela sente. De todos os esforços para se livrar da lembraça de Mark, nada dava certo. Ela nunca iria esquecer de algo que estava nela.
Quando as coisas são certas, mas as pessoas temem fracassar, sempre alguém desiste. Mas desistir não significa superar.
Era tudo muito certo para ela. Mas não para Mark.
A verdade naquele momento, era uma só. Ela podia pensar milhões de coisas, arrumar milhões de explicações, mas a verdade era uma só. Ela sentia a falta dele. E nada poderia mudar isso, agora que as palavras já haviam sido marcadas nela. Era necessário se acostumar com o nada.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Acidez

Sabe o que é uma coisa ácida? Poucas pessoas gostam. Na verdade, é um gostar amargo. É algo que é simplesmente ácido. Doa a quem doer. Se você não gosta, problema. Sua forma é essa. Sua essência é essa. Nunca deixa de ser porque alguém quer. Você deve aceitar.
E ele é assim. Faz o que quer. Porque sabe o que sente. Faz as escolhas dele. E aguenta as consequências. Diz o que pensa. Na cara. É forte e direto. Não existe morno. É muito frio, ou quente demais. E quando quer, luta.
E eu admiro todo esse poder que ele tem de pensar antes de fazer algo, e levar tudo até o fim. Ele sabe quem ele é. E não obriga ninguém a gostar dele.
Assim como uma coisa ácida, ele é simples e ao mesmo tempo complexo. No começo você pode estranhar o gosto, o jeito de ser, mas depois você se encanta com tanta personalidade, e ganha um amigo para a vida toda.

Parabéns Dante, 400km de parabéns.