quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ramblin' Woman

Tirou as luvas vermelhas, jogou em qualquer lugar. Nada mais importava. André andou até a sala e olhou tudo, buscando vestígios da passagem de Ana. Nada. A sala em sua perfeira desordem. Almofadas espalhadas em cima do sofá. A tv desligada, as caixas de dvds abertas. André gostava de filmes, Ana de livros.
Em seu quarto, a mesma coisa. Cama desarrumada, roupas espalhadas, cds jogados, janela fechada. André gostava de rock, Ana de música clássica. André gostava de escuridão, Ana de luz.
Não tinham nada em comum exceto a vontade de estarem juntos. Agora, nem isso.
Ana entrou na vida de André de uma forma rápida. Ele quase atropelou aquela garota carregada de livros que andava destraída. Em vez de reclamar, ela sorriu, aceitou as desculpas daquele homem sério e continuou seu caminho.
Foi como um feixe de luz. André não podia ver aquele ser tão puro passar por ele, sem fazer parte da sua vida.
Perguntou seu nome "Ana Clara." Ela tinha olhos lindos... "Faço faculdade de letras." "Não.. Não tenho namorado." Aquele sorriso tímido... O rosto pálido ficando vermelho... Tão linda!
Alguns cafés se foram. Alguns risos tímidos dela. Algumas palavras que podiam revelar quem era. Bastava estar atento. Ana tinha sonhos, tinha algo no seu jeito de falar. Algo em seu cheiro. Ela era única, vivendo em um mundo paralelo.

E como uma luz, Ana vai. Pega suas coisas, deixa um bilhete na geladeira. Letras amassadas, papel sujo de canela...
"Well I love you baby
But you got to understand
When the Lord made me
He made a ramblin' woman
He made me, he made me"


Era uma música. Era uma despedida.

Deixou um livro em cima da mesa. Eram poemas ou músicas, não importava. André nunca iria ler mesmo.
Aceitava a ausência dela. Mas, quando a solidão era grande, ele abria o livro e sentia o cheiro das páginas, que o faziam se lembrar da sua luz.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

?

Ela era apenas dúvidas. Não haviam certezas sobre o que fazer, o que pensar, o que sentir. Não gostava de se sentir assim, mas era invitável. Querer algo, e logo depois desistir. Sempre complicada, mas sempre decidida. E nem isso mais.
Ela era dúvidas sobre tudo. Precisa de alguém para dizer, 'eu quero isso de você' ou 'faça algo concreto.' Não havia ninguém capaz de decifrar seu pensamento, nem ela mesma. Sempre exigindo dos outros... De si... Tudo era muito difícil. Tudo era complicado.

Ela só queria algumas certezas, as certezas de antigamente.
Ela só queria algo concreto.
Ela só queria que alguém adivinhasse o que ela queria.

Ela só queria querer.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Não tem ninguém

"Eu sinto a falta dele." Admitiu em uma fração de segundo, a verdade. Sentiu cada sílaba gravar em seu coração.
Uma tatuagem.
Uma marca.
Uma ausência.
Como o vento que corta de repente o rosto, a verdade aparece. De fato sempre existiu, mas hoje ela se manifestou. "Eu sinto a falta dele." Disse em voz alta, para se confrontar com a realidade. Ela sente... É o que mais ela sente. De todos os esforços para se livrar da lembraça de Mark, nada dava certo. Ela nunca iria esquecer de algo que estava nela.
Quando as coisas são certas, mas as pessoas temem fracassar, sempre alguém desiste. Mas desistir não significa superar.
Era tudo muito certo para ela. Mas não para Mark.
A verdade naquele momento, era uma só. Ela podia pensar milhões de coisas, arrumar milhões de explicações, mas a verdade era uma só. Ela sentia a falta dele. E nada poderia mudar isso, agora que as palavras já haviam sido marcadas nela. Era necessário se acostumar com o nada.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Acidez

Sabe o que é uma coisa ácida? Poucas pessoas gostam. Na verdade, é um gostar amargo. É algo que é simplesmente ácido. Doa a quem doer. Se você não gosta, problema. Sua forma é essa. Sua essência é essa. Nunca deixa de ser porque alguém quer. Você deve aceitar.
E ele é assim. Faz o que quer. Porque sabe o que sente. Faz as escolhas dele. E aguenta as consequências. Diz o que pensa. Na cara. É forte e direto. Não existe morno. É muito frio, ou quente demais. E quando quer, luta.
E eu admiro todo esse poder que ele tem de pensar antes de fazer algo, e levar tudo até o fim. Ele sabe quem ele é. E não obriga ninguém a gostar dele.
Assim como uma coisa ácida, ele é simples e ao mesmo tempo complexo. No começo você pode estranhar o gosto, o jeito de ser, mas depois você se encanta com tanta personalidade, e ganha um amigo para a vida toda.

Parabéns Dante, 400km de parabéns.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Queda Livre

Caiu. De uma forma rápida, magistral. A bicicleta estava em alta velocidade. Ele não esperava pela pedra no meio do cominho. Justo na decida? Mas não havia tempo para parar, a queda era consequência da intensidade. Queria descer rápido, sem se importar com os obstáculos. Mas a maldita pedra tinha o parado. Na verdade, passou por cima da bicicleta, e caiu girando. Uma queda invejável. Podia ver as árvores de relance, e ao tocar o chão sentiu a velocidade diminuir. Não fazia esforço para parar. Queria correr riscos, aguentar as consequências. Deixou rolar, raspar nas pedras. Fechou os olhos, queria apenas sentir. Havia grama, e algumas coisas machucavam. Foi tudo muito rápido. Até que novamente, havia outra pedra. No começo ela fora causadora de tudo. Deu o impulso para aquela queda alucinante. Agora ela interrompia o giro no chão. Bem na altura dos ombros. Parou bruscamente. Deitou de barriga para cima. Não porque era mais confortável. Mas porque a pedra quis assim.
De olhos fechados. Sentiu a dor em cada parte do seu corpo frágil. Respirava fundo. Tudo doía. E sua perna sangrava. Nos joelhos. A calça rasgada. Ele sentia o sangue pulsar. Quente, escorria pela perna. Seu rosto. Seu rosto sangrava. Tudo doía. Respirar doía. Mas mesmo assim, ele sorriu.
Estava vivo, não estava? E era bom se sentir assim. Seu corpo lutando para continuar. Ele não se importava. Gostava de testar seus limites. Sempre um pouco mais. Sempre além de algo. Ele sorria. De olhos fechados, sentia o sol queimar sua pele, e imaginava que o mesmo sol, iluminava seus dentes. Naquele sorriso torto. Aquele sorriso que só quem descobre uma verdade pode ter.
Abriu os olhos. Céu azul, sol forte. Alguns pássaros. O silêncio da floresta. O cheiro do sangue. A dor no corpo. Sorriu, como se tivesse atingido o efeito esperado. Começou a rir. Se levantou com dificuldade. E riu ainda mais alto. Em pé, olhou para o morro que acabara de descer rolando. Riu mais alto. E começou a subir para mais uma vez terminar sua descida de bicicleta. Só para provar que nada poderia fazê-lo parar.

sábado, 29 de maio de 2010

Entre Estrelas

Anita olhou para o céu. Da janela da sua casa ela se sentia mais próxima das estrelas. Minúsculos pontinhos brilhantes acima dela, lhe passavam uma sensação de paz. Era mais uma daquelas noites em que todas as sensações aparecem de uma vez. Sentimentos que só poderiam surgir se ela estivesse sozinha. Ela e suas estrelas. Cada pontinho parecia olhar para ela. Como se cada uma das estrelas estivesse ali por um motivo. Não havia nada acima das estrelas. Ou será que havia? Não, não havia... Se existia algo além da compreensão humana, esse algo estaria entre as estrelas. Quem disperdiçaria a chance de viver entre as estrelas? Naquele momento em que olhava para o céu, sua vida parecia um pouco mais real. Algo mais verdadeiro. Ela existia. Tinha consciência disso. Naquele breve instante. Tudo pareceu certo. Anita sentiu algo estranho percorrer seu corpo. Um arrepio leve, algo dentro dela. Alguma coisa que estava vivendo entre as estrelas, estava nela também.

As estrelas estavam vivas.
Anita estava viva.
O que teria feito isso acontecer?


Algumas pessoas sentem por um breve momento, um momento muito, muito breve, que tudo tem uma explicação. E em uma fração de segundo, essas pessoas descobrem o mistério da vida. Depois passa, e elas já não sabem de nada, porém, naquele breve momento, elas souberam de tudo. Todas as verdades.

As estrelas estavam vivas.
Anita estava vida.
O que teria feito isso acontecer?


Ela não sabia explicar ao certo, mas, de algum modo sentiu que aquele arrepio que pecorria seu corpo, era o que fazia Anita estar viva.
Sua alma talvez seria como uma estrela. Brilhante e única.
Quando Anita morresse, seu corpo não existiria mais. Porém, se sua alma fosse como uma estrela, essa sim, irradiaria luz por toda a eternidade.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Será que vale a pena trocar minha vida certa, por um segundo ao lado dela? Bem... Depende desse um segundo.